Quando o Desejo Encontra Seus Limites
Há histórias que não se contam por palavras comuns. São aquelas que carregam dentro de si um turbilhão de sentimentos, sensações que a linguagem mal consegue traduzir. É uma história de descoberta, de entrega, de surpresa e frustração. Uma história em que o desejo se enreda com o coração, e onde o corpo, às vezes, tem vontades próprias. Essa é minha história. Uma história sobre como aprender a amar vai muito além daquilo que os olhos veem.
Conheci Lucas numa época em que eu ainda acreditava que beleza física era sinônimo de plenitude. Naquela fase, eu escolhia meus desejos pelo reflexo que viam no espelho — homens altos, musculosos, quase esculturas ambulantes. Mas por trás da perfeição estética, muitas vezes encontrava vazio. E foi num desses momentos de decepção que resolvi abrir mão dos padrões, deixar para trás as expectativas e permitir que o inesperado me surpreendesse.
Lucas não era o tipo de cara que chamaria minha atenção em qualquer outro dia. Não tinha aquele charme óbvio, nem a aura dominante que tantas vezes me fascinou. Era quieto, discreto, alguém que passava despercebido até que você parava, respirava fundo e começava a ouvir. Foi num trabalho acadêmico aleatório que nossos caminhos se cruzaram. Sozinhos em sua casa, antes que os outros integrantes do grupo chegassem, demos início a uma conversa que parecia interminável. Ele falava devagar, como quem tem tempo para cada palavra, e seus olhos brilhavam ao mencionar livros, músicas obscuras e filmes antigos — coisas que eu também adorava. Naquele momento, algo dentro de mim despertou. Não era apenas atração. Era conexão.
Nossos encontros se sucederam, leves e envolventes. Conversávamos por horas, ríamos sem parar, compartilhávamos segredos que nunca diríamos a ninguém. Lucas tornou-se meu refúgio. Um homem gentil, inteligente, que me fazia sentir vista, compreendida. Até que, certa noite, ele me perguntou, com voz baixa e olhar direto:
— Quer ir pra minha casa?
Aceitei sem pensar duas vezes.
Naquela noite, o ar entre nós era diferente. Pesado de desejo. As mãos roçavam-se mais demoradamente, os olhares se prolongavam, e havia na sala um silêncio que gritava. Ao chegarmos à sua casa, tudo pareceu acelerar-se, como se o universo tivesse decidido que aquele momento era inevitável.
Beijamo-nos com urgência, corpos colados, respirações entrelaçadas. Suas mãos exploravam minhas costas, meus cabelos, enquanto eu deslizava pelos contornos de sua pele, sentindo-a quente sob meus dedos. A excitação crescia, intensa, palpável. Até que ele se despiu.
E ali, diante de mim, estava algo que eu jamais imaginara enfrentar. Algo que fez meu coração acelerar de um jeito novo — medo, admiração, insegurança, tudo junto. Ele era... grande. Tão grande que, por um instante, fiquei paralisada. Meu corpo reagiu antes mesmo da mente — endureceu, travou. Eu queria estar pronta, queria corresponder ao desejo que nos unia, mas não conseguia. Minha respiração ficou presa, meus músculos contraíram-se involuntariamente. E quando tentamos seguir, a dor foi imediata.
Paralisei-o com um sussurro frágil:
— Para, Lucas. Tá doendo.
Ele obedeceu sem hesitar. Olhou-me com cuidado, como quem percebe que há feridas invisíveis precisando de cura. E ali, na penumbra do quarto, eu me senti nua de verdade — não apenas fisicamente, mas emocionalmente exposta. Vergonha, frustração e uma estranha culpa tomaram conta de mim. Como explicar que o problema não era ele, mas sim o modo como meu corpo reagia?
Passaram-se semanas. Lucas continuou sendo o mesmo homem atencioso, presente, afetuoso. E eu, por mais que tentasse negar, sentia falta dele. Sentia falta da forma como me olhava, como me tocava, como me fazia sentir desejada. Então, numa outra noite, tentamos novamente. Desta vez, preparei-me mentalmente. “Vou relaxar. Vai dar certo.” Mas o resultado foi o mesmo. Dor. Desconforto. Medo. E a cruel sensação de que eu estava traindo o amor com o qual já me comprometera.
Depois disso, tudo mudou. Não abruptamente, mas aos poucos. O espaço entre nossas mensagens aumentou, os encontros tornaram-se raros. Ele entendia, eu sei. Mas isso não tornava a distância menos dolorosa. Porque, mesmo sem conseguir corresponder fisicamente, eu o amava. Amava profundamente. E isso doía — não só pela perda do toque, mas pela ausência de algo que poderia ter sido tão completo.
Hoje, somos amigos. Trocamos notícias de vez em quando, sorrimos em lembranças que carregam tanto saudade quanto ternura. Ele está feliz, apaixonado por alguém que, suponho, conseguiu o que eu não pude. E eu? Eu fico aqui, recordando. Recordando de um homem que me ensinou que o amor não se resume a gestos ou toques. Que, às vezes, o maior ato de carinho é saber esperar, respeitar e entender que nem todos os desejos podem ser consumados.
Essa história me marcou. Não só pela paixão que nasceu, mas pelas lições que trouxe. Descobri que desejo é mais do que carne. Que entrega é mais do que contato. E que, por mais que nosso corpo nos limite, nosso coração sempre encontra formas de amar. Mesmo que em silêncio. Mesmo que à distância. Mesmo que incompleto.
E talvez, nisso tudo, esteja a beleza mais pura do amor: sentir-se inteiro por alguém, mesmo quando não podemos estar inteiramente juntos.




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